Seminário Manifestos & Manifestações, unipop e maria matos
debate REBELDES CONTRA O FUTURO? 200 ANOS DEPOIS DO LUDISMO
Casa da Achada # sexta-feira, 20 de maio # 21h30 # entrada livre
organização UNIPOP e revista imprópria
(ver localização aqui)
com a participação de:
José Luís Garcia
Gualter Baptista
José Neves
Há duzentos anos atrás, durante o período da primeira Revolução Industrial em Inglaterra, emergia um movimento de artesãos têxteis que se opunha à
introdução de maquinaria nos processos de trabalho. No âmbito de processos de industrialização que introduziriam alterações profundas nos seus modos de
vida e deixariam sem trabalho os artesãos mais qualificados, o termo ludita cunhou um movimento que se inspirava em Ned Ludd, também conhecido por General Ludd. Embora não se saiba ainda hoje se Ludd foi ou não mais do que uma personagem mítica, a sua figura ficou associada à destruição de duas máquinas de tricotar na fábrica onde trabalharia, em resposta a uma repreensão patronal. Não obstante o movimento ludita ter sido desencadeado por artesãos, o termo «ludita» foi desde então retomado na crítica ao culto da tecnologia, do trabalho e do progresso. A Unipop e a revista Imprópria organizam um debate que discutirá a história do movimento ludita, os movimentos contemporâneos de acção directa contra a modernização capitalista – entre outros, movimentos antinuclear, de oposição à agricultura transgénica ou à patenteação de sementes – e os limites da ideia de progresso.
Ciclo AGÊNCIA - Algumas formas ao alcance de todas as mãos | A arte do trabalho (sessão UNIPOP, 30 Abril, 18h30)
The Barber Shop (Rua Rosa Araújo, n.º 5, Lisboa - metro Avenida)
Entrada livre
Agência é uma entidade abstracta, simultaneamente estrutura e impulso que gera actividade, identificada como intermediária na gestão de negócios pessoais. Mas aqui, o que nos deveria interessar é a própria definição daquilo que é negócio alheio: serão a precariedade, a subsistência, das finanças aos rendimentos, como a própria representação artística, parte dos negócios que não nos concernem como autores e produtores? Ou é esta a componente do negócio da qual nos alheamos voluntariamente, por não a considerar trabalho ou tópico propriamente dito? Deixemos então cair nas nossas mãos, nas suas variadas qualificações e inqualificações, estes negócios alheios, possibilitando a discussão colectiva das vantagens e opções individuais de trabalho para lá do trabalho autoral.
Se a crítica institucional pressupunha a instituição como campo de acção e poder, é possível que esta tenha de se reestruturar e dirigir à vida em si mesma de modo a responder à biopolítica que define o capitalismo actual. Isto porque se por um lado esta dissolução de esferas de competência é tradição do modernismo artístico, por outro lado é para as condições de vida dos artistas que um mercado flexível olha hoje como modelo empreendedor e neo-liberal.
Assim, pedimos emprestado ao falecido pintor Ângelo de Sousa, o título que atribuiu aos desenhos feitos de gestos simples, gramáticas para linguagens entre corpos, capazes de serem feitos por qualquer um, no seu imaginário de equivalência e acessibilidade. Com Ângelo de Sousa, pressupomos então que uma tal passagem da arte às condições e opções de vida podem somente dar-se por um princípio de empatia e agenciamento.
Em quatro sessões abordar-se-ão questões sobre a noção de trabalho em Arte Contemporânea. Estas sessões percorrerão uma reflexão sociológica da área em Portugal (Vera Borges), a análise teórica e filosófica do trabalho precário no capitalismo actual (José Neves/ Miguel Castro Caldas), alguns exemplos de associativismo e activismo laboral (Scottish Artists Union), bem como de quando a arte e direitos de autor se imiscuem na área do Direito (Daniel McClean). Em paralelo serão disponibilizados conteúdos online, que amplificam a área de reflexão do programa, tais como como uma entrevista com os Temporary Services e o seu jornal Art Work, contribuições da Agency de Kobe Matthys, bem como os resultados do inquérito a trabalhadores em Arte Contemporânea circulado online em Portugal em Abril de 2011.
Agência: algumas formas ao alcance de todas as mãos é um projecto concebido por The Barber Shop com Mariana Silva e Pedro Neves Marques.
(sessões)
30 ABRIL 17h
Vera Borges:
Em conversa com Vera Borges, serão abordados alguns dos resultados do inquérito a trabalhadores no campo da Arte Contemporânea em Portugal, circulado on-line em Abril de 2011. A partir destes, será tida uma conversa em torno da sociologia do campo das artes visuais, condições de trabalho, direitos, remuneração e representação.
30 ABRIL 18h30
José Neves e Miguel Castro Caldas - Sessão organizada por Unipop:
Conhecemos bem os efeitos dos processos de mercadorização em curso. Tendem a submeter as mais diversas actividades humanas ao princípio mercantil. Faz-se o que se vende. Nos últimos anos a cultura em geral e a arte em específico têm sido áreas particularmente influenciadas por este princípio. A situação tem gerado inúmeros debates em torno do estatuto do artista e da própria obra de arte, bem como acerca das relações da arte e da cultura com o Estado e com o Mercado.
Ao mesmo tempo, embora, porventura, com menor repercussão a nível dos debates públicos, as actividades mais convencionais de produção de mercadorias - desde logo, as actividades industriais - têm igualmente passado por transformações importantes, redefinindo o estatuto do produtor e do próprio produto. Há quem fale de cidades que se tornam criativas, apoiando-se em processos de gentrificação, e quem refira a emergência de um novo proletariado, um proletariado imaterial, para quem a precariedade é a ordem dos dias e das noites que correm, e o tempo de trabalho e o tempo de vida se tornam indissociáveis: tudo o que se faz é e não é trabalho. É da intersecção destes dois processos - mercadorização da vida, "criativização" do trabalho - que surge o título deste debate: a arte do trabalho.
7 Maio 17h
Peter McCaughey:
Como membro executivo da Scottish Artists Union, a contribuição do artista e professor Peter McCaughey focar-se-á em questões práticas sobre diversas abordagens que poderão guiar os artistas em tempos de acrescida precariedade.
7 Maio 18h30
Daniel McClean:
Dada a sua prática enquanto advogado e curador, Daniel Maclean examinará dois pontos a partir dos quais a Lei interpreta a Arte. Primeiro, a classificação e definição de obras de arte; segundo, a articulação e defesa dos direitos dos artistas. Algumas consequências destas interpretações para a arte e para os artistas serão debatidas, bem como o uso por artistas da Lei em Arte e o que este processo propõe em relação à Lei.
(bios)
Vera Borges é doutorada em Sociologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales e pela Universidade Nova de Lisboa. É autor de vários livros sociológicos sobre o teatro em Portugal, por exemplo Teatro, Prazer e Risco (Roma Editora, 2008), sendo de momento investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
José Neves é professor no Departamento de História da FCSH-UNL e é investigador do Instituto de História Contemporânea da mesma faculdade.
Miguel Castro Caldas escreve para teatro, faz traduções, dá aulas. Co-traduziu o «O Governo das Desigualdades», de Maurizio Lazzarato.
Peter McCaughey é membro executivo da Scottish Artists Union. Em paralelo à sua prática artística, faz investigação e lecciona no departamento de Escultura e Environmental Art da Glasgow School of Art. Tem contribuido frequentemente para comissões, colaborando com arquitectos, urbanistas, engenheiros e designers em think tanks sobre arte pública. Recentemente, contribuiu para o livro Cultural Hijack sobre direitos de artista e preparou uma campanha da Scottish Artists Union que visa desafiar os partidos políticos perante as políticas culturais e artísticas vigentes.
Daniel McClean é curador, escritor e consultor em questões legais ligadas à arte. É advogado na Finers Stephens Innocent, tendo trabalhado com vários artistas em questões de direitos de autor e condições legais, incluindo mais recentemente o projecto dos Superflex Free Sol Lewitt no Van Abbenmuseum, Eindhoven. É o editor do livro The Trials of Art (2008). É formado em Filosofia, Política e Economia pela Universidade de Oxford e em Lei e Propriedade Intelectual pela Universidade de Londres.
Temporary Services é constituído por Brett Bloom, Salem Collo-Julin and Marc Fischer. Tendo começado na cidade de Chicago, está no activo deste 1998, produzindo exposições, eventos e publicações com foco em direitos de artista e questões relacionadas, nos EUA e internacionalmente, incluindo o jornal Art Work: A National Conversation About Art, Labor and Economics (2009).
Agency foi fundada pelo artista Kobe Matthys em 1992 e é baseada em Bruxelas. Tem participado em várias exposições e eventos, incluindo Animism (Extra City - Kunsthal Antwerpen/ Museum of Contemporary Art, Antuérpia), Un-Scene (Wiels, Bruxelas) ou When Things Cast no Shadows: 5th Berlin Biennial (Berlim).
+ info: http://www.thisisthebarbershop.blogspot.com/
mesa-redonda DOS MOTINS ÀS REVOLUÇÕES, E VICE-VERSA

Casa da Achada # sábado, 19 de fevereiro # 15h # entrada livre
organização UNIPOP e revista imprópria
(ver localização aqui)
com a participação de:
Miguel Cardoso
Pedro Rita
José Soeiro
Manuel Loff
Paulo Granjo
Ricardo Noronha
A partir dos mais diversos pontos, de Roma a Tunes, do Cairo a Oakland, de Londres a Beirute, de Buenos Aires a Atenas, de Maputo a Sana, um conjunto muito significativo de lutas, manifestações, greves, ocupações tem vindo a ter lugar. Um elemento comum, além da assinalável capacidade de mobilização, parece ser o facto de muitas destas acções assumirem, formal e substancialmente, o questionamento não só da ordem estabelecida, mas também do padrão normalizado da luta política legal e confinada aos limites do poder de Estado. Num contexto de crise do capitalismo global, a ordem pública é confrontada com uma desordem comum que toma as ruas como o seu espaço, resgatando palavras como «revolução», «revolta», «motim». O debate que propõe a UNIPOP passa por procurar identificar que outros pontos de contacto têm estes diversos focos de luta, bem como quais são os seus limites, e perceber em que medida é que um certo efeito de arrastamento pode ou não ter como consequência a constituição de uma resposta emancipadora à crise do capitalismo global, ou seja, que articulação têm estes movimentos com o paradigma da «revolução» e de que modo o reconfiguram.
mesa-redonda O ESPECTRO DA ANARQUIA
organização UNIPOP
(ver localização aqui)
com a participação de:
António Cunha
# membro do colectivo Casa Viva #
António Pedro Dores
# sociólogo e prof. no ISCTE #
José Carvalho Ferreira
# economista e prof. no ISEG #
José Neves
# historiador e prof. na FCSH #
Miguel Madeira
# economista #
Miguel Serras Pereira
# tradutor #
Ricardo Noronha
# doutorando em História #
O recurso a etiquetas ideológicas é uma prática recorrente, quer por parte de correntes de pensamento e movimentos sociais e políticos quer por parte dos poderes instituídos. Se para os primeiros uma lógica de fixação identitária parece impô-lo, para o segundo trata-se de uma técnica de definição de um inimigo, interno ou externo, identificável, de um processo de naturalização do recurso à violência autorizada. «Comunismo», «terrorismo», «antiglobalização», «anarquismo» têm sido algumas dessas etiquetas. Mais recentemente, o «anarquismo» – ou mais sofisticadamente as «ideias anarquistas» – instalou-se no espaço mediático a propósito de um conjunto de movimentações sociais contra os poderes instituídos. Detenções, condenações judiciais, cordões policiais em manifestações, a coberto da defesa da democracia contra as «ideias anarquistas», têm, na verdade, sustentado a criminalização de todas as lutas que procuram situar-se para lá da intervenção política e social institucionalizada. Partindo do reconhecimento de que por detrás da designação «anarquismo» se esconde uma enorme pluralidade teórica e prática, a UNIPOP propõe uma discussão acerca do percurso histórico das «ideias anarquistas» em Portugal, bem como uma abordagem cruzada de algumas das tradições teóricas que se colocam sob essa etiqueta.
COMMONIVERSITY, Barcelona 25 de Novembro
Ciclo de debates PRIVADO, PÚBLICO e COMUM
LOCAL: TEATRO MARIA MATOS, Lisboa
# entrada livre #
Há mais vida além do Estado e do mercado? Ao longo dos últimos anos, a oposição entre público e privado tem ocupado um lugar fundamental em grande parte dos debates políticos e com a crise económico-financeira esta tendência acentuou-se de modo ainda mais nítido. Neste ciclo de debates, a UNIPOP propõe partir das contraposições entre público e privado e entre Estado e mercado, discutindo-as em diferentes dimensões do quotidiano, da organização do trabalho à construção das cidades, passando pelos processos educativos, pelo espaço mediático e pelas políticas de saúde. Procuraremos analisar as transformações das últimas décadas, tanto à escala nacional como à escala global, e apontar novos caminhos, num debate que vai além da simples contraposição entre público e privado ou Estado e mercado, contraposição cuja rigidez tende muitas vezes a confinar o combate aos processos de privatização à defesa do controlo estatal. Se por um lado queremos mapear claramente o que separa privado e público, por outro trata-
se de questionar a possibilidade de questionar formas de poder transversais ao espaço público e à esfera privada.
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11 de Outubro 18h30 (data actualizada)
O que é o Comum?
Debate com Michael Hardt e a UNIPOP
Com a publicação de Império, em 2000, Michael Hardt e Toni Negri renovaram de modo significativo os termos do debate político à esquerda. O livro, entre muitos utros pontos de debate, procurou repensar a política além da alternativa entre o capitalismo e o socialismo, assumindo como tarefa a renovação de um imaginário radical igualmente crítico do Estado e do mercado, retomando as tradições autónomas do movimento operário, assumindo-se como herdeiro de Maio de 68 e acompanhando os novos movimentos alterglobais. Em Multidão, primeiro, e, mais recentemente, em Commonwealth, Hardt e Negri continuaram a reflexão iniciada em 2000, nomeadamente em torno dos temas da propriedade, da produção e do rendimento, articulando alguns dos principais debates marxistas em torno da economia com os estudos foucauldianos acerca da biopolítica e da governamentalidade. Sublinharam, em particular, a necessidade de construir uma política assente no comum, entendido como condição essencial do comunismo, tal como o privado será condição do capitalismo e o público do socialismo. Dez anos depois de Império, Michael Hardt discute em Lisboa, com a UNIPOP, alguns dos aspectos mais importantes do trabalho político da dupla Hardt e Negri.
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13 de Outubro 18h30
Economia, Comunismo e Pirataria
Conversa com José Maria Castro Caldas e Miguel Serras Pereira
Nos últimos anos tem sido frequentemente debatido o maior peso do Estado ou do mercado na vida económica. Ao culto da livre iniciativa empresarial contrapõe-se a necessidade de maior regulação estatal, num debate a que não são de todo indiferentes as transformações ideológicas do liberalismo e do socialismo no século XX e as dinâmicas de globalização nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, a partir de experiências como as que caracterizaram a crise argentina do início deste século, retomaram a sua actualidade debates acerca do próprio modo de organização do poder no seio da empresa, reavivando-se tradições conselhistas ou de autogestão, assim como colocando na ordem do dia novas práticas comunais, de que se encontra exemplo na questão dos direitos de autor e de propriedade intelectual.
José Maria Castro Caldas é economista do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Miguel Serras Pereira é tradutor.
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20 de Outubro 18h30
Cidades, Centros Comerciais e Praças Públicas
Conversa com João Pedro Nunes, Manuel Graça Dias e Miguel Silva Graça
A cidade tem sido palco de conflito entre interesses privados e públicos, conflito em que a questão imobiliária e os debates em torno do planeamento, colocando em causa a sacralidade do direito à propriedade privada, têm assumido particular destaque. Entretanto, a fronteira entre público e privado nem sempre resulta clara, seja porque a questão da privacidade tem sido colocada no âmbito do próprio espaço público (veja-se os debates em torno da videovigilância) seja porque existem determinados espaços privados, como os centros comerciais, que parecem assumir funções de encontro e reunião que antes eram apanágio da rua ou da praça. Ao mesmo tempo, os problemas específicos da habitação, dos chamados bairros de lata aos novos bairros sociais, mas também passando pelos condomínios fechados, pelos processos de gentrificação ou pelos movimentos de ocupação de casas, têm colocado as fronteiras entre público e privado em transformação, nuns casos, consolidando-as, noutros, atenuando-as.
João Pedro Nunes é sociólogo e investigador do CIES-ISCTE, Manuel Graça Dias é arquitecto e professor de arquitectura na Universidade do Porto e Miguel Graça é arquitecto e doutorando na Universidade de Valladolid.
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27 de Outubro 18h30
Media, Propriedade e Liberdade
Conversa com Daniel Oliveira, Nuno Ramos de Almeida e Rui Pereira
De que falamos quando falamos de liberdade de expressão? Nos últimos anos, os grandes meios de comunicação social fazem alarde da liberdade de expressão contra alegadas interferências do Estado, mas poderemos falar de liberdade de expressão no quadro de uma economia dos media em que a concentração impera? Neste contexto, importa atender a novas formas de comunicação que, à margem do controlo directo do Estado e dos grandes grupos privados, têm vindo a tecer redes muito vastas em que a fronteira entre emissor e receptor parece fragilizar-se. É o caso de uma série de meios suportados pela Internet, que, aliados aos novos desenvolvimentos tecnológicos, permitem igualmente colocar em cima da mesa novas possibilidades de estender o direito de emissão televisiva ou radiofónica além das empresas públicas e das empresas privadas de comunicação.
Daniel Oliveira, Nuno Ramos de Almeida e Rui Pereira são jornalistas.
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3 de Novembro 18h30
Medicina, Ciência e Saberes
Conversa com António Fernando Cascais e Isabel do Carmo
Em tempo de guerra ou em tempo de paz, o sistema estatal de saúde constitui um dos elos mais importantes da relação entre os Estados e as populações e durante a segunda metade do século XX os sistemas estatais de saúde têm sido considerados, na Europa mas não só, como uma das áreas primordiais de intervenção estatal, entre outras coisas visando impedir que as desigualdades económicas entre pessoas e classes se reflictam de modo ainda mais marcante no direito universal à saúde. Durante o mesmo período, contudo, as relações entre médico e doente têm vindo a ser cada vez mais objecto de debate, no quadro do questionamento das lógicas de poder subjacentes ao conhecimento científico, daqui resultando importantes discussões acerca da importância do «atendimento» em meio hospitalar (questão particularmente valorizada por gentes privados do sector da saúde), por um lado, e, por outro, da necessidade dos sistemas úblicos integrarem saberes e conhecimentos heterodoxos face às correntes dominantes na medicina (questão com implicações a nível nacional mas também no quadro dos debates em torno das valências de diferentes práticas culturais).
António Fernando Cascais é professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Isabel do Carmo é médica no Hospital de Santa Maria.
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10 de Novembro 18h30
Escola, Ordem e Emancipação
Conversa com António Avelãs e Jorge Ramos do Ó
A disputa pelo método de educar atravessa a história e é motivo de concórdia e discórdia entre professores, ministros, pais, psicólogos, alunos. Entre o ensino público e o ensino privado, o primeiro financiado pelo Estado e o segundo suportado pelas famílias, têm-se travado muitos destes debates, que se cruzam com outros tantos, à volta do ideal iluminista da educação como emancipação, e do seu potencial para corrigir as desigualdades ou, pelo contrário, para as eproduzir. Entretanto, a disputa pelo método de educar coloca igualmente em campo professores e alunos. As relações de poder que entre eles se estabelecem, das reiteradas críticas à falta de utoridade dos docentes à tentativa de levar a cabo experiências pedagógicas emancipatórias da condição estudantil, têm suscitado um debate pouco informado, mas nem por isso menos cirrado, e que constitui o ponto de partida para esta conversa.
António Avelãs é professor e presidente do Sindicato de Professores da Grande Lisboa e Jorge Ramos do Ó é historiador e professor do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.
Curso Pensamento Crítico Contemporâneo ESTÉTICA & POLÍTICA
Inscrições (no valor de 25 €) através de pccestetica@gmail.com
De 10 de Abril a 05 de Junho de 2010
Aos sábados, das 18h00 às 20h00
na Fábrica Braço de Prata
Rua da Fábrica do Material de Guerra, n.º 1
1950 LISBOA
Entre política e estética, há uma longa história de mútuas suspeitas, denúncias e incompreensões, que têm coexistido com uma intensa e fértil, ainda que por vezes clandestina, interdependência. Tomamos a ambivalência que marca esta relação como testemunho de um terreno comum que importa revisitar, longe das caricaturas habituais, mas igualmente sem elidir as tensões que o constituem. O espaço para que esta discussão seja pensável de forma simultaneamente esclarecedora e crítica permanece em construção: o objectivo primordial deste curso é, por isso mesmo, o de contribuir para a sua criação, visibilidade e alargamento.
PROGRAMA
10 de Abril
Apresentação do curso por Manuel Deniz Silva e Miguel Cardoso
Kant por Adriana Veríssimo Serrão
17 de Abril
Hegel por Miguel Cardoso
Marx por José Bragança de Miranda
24 de Abril
Nietzsche por Nuno Nabais
Freud por João Peneda
8 de Maio
Oficina de leitura: “O inconsciente político do sublime. Em torno de Lyotard e Rancière”. Orientação: Manuel Deniz Silva
15 de Maio
Walter Benjamin por Pedro Boléo
Theodor W. Adorno por João Pedro Cachopo
22 de Maio
Gilles Deleuze por Catarina Pombo
Guy Debord por Ricardo Noronha
29 de Maio
Jacques Rancière por Vanessa Brito
Giorgio Agamben por António Guerreiro
05 de Junho
Debate de encerramento: “Estética e Política”
Silvina Rodrigues Lopes
Manuel Gusmão
Mário Vieira de Carvalho
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Apresentação do curso:
Entre política e estética, há uma longa história de mútuas suspeitas, denúncias e incompreensões, que têm coexistido com uma intensa e fértil, ainda que por vezes clandestina, interdependência. Tomamos a ambivalência que marca esta relação como testemunho de um terreno comum que importa revisitar, longe das caricaturas habituais, mas igualmente sem elidir as tensões que o constituem.
O espaço para que esta discussão seja pensável de forma simultaneamente esclarecedora e crítica permanece em construção: o objectivo primordial deste curso é, por isso mesmo, o de contribuir para a sua criação, visibilidade e alargamento. Tal trabalho preparatório implica reinscrever a estética na trajectória da nossa modernidade histórica e filosófica, com todas as contradições que isso acarreta, perceber o quanto as categorias políticas que marcam a nossa contemporaneidade devem a conceptualizações estéticas, bem como submeter o campo estético a uma análise crítica, confrontando-o com as suas exclusões e ângulos cegos.
Partimos para estas interrogações com a premissa de que a sociedade em que vivemos é atravessada por divisões e conflitos a que o estético não é imune, mas a que também não pode ser reduzido. Isto implica uma dupla rejeição: da inflação do potencial crítico da obra de arte, assente na ideia de que o estético é por si só emancipador, por um lado; e, por outro, da redução do estético ao ideológico e do recurso à sua explicação sociológica que neutraliza o seu potencial crítico.
De um ponto de vista político, a estética tem sido simultaneamente subestimada e sobrestimada. Sendo plural, contraditória – e inseparável das práticas artísticas a cujo perímetro, porém, não se restringe –, é muitas vezes reduzida ora à apreciação de obras de arte, ora a uma forma de consumo cultural privatizada que constituiria um abrigo imune às intrusões da história, aos constrangimentos do social e à vulgaridade dos interesses. Devemos entender as razões desta cristalização, trazer à luz a forma como um certo discurso filosófico estético institui tais divisões e não meramente as reflecte, e submetê-la a uma crítica feroz.
Contudo, entender a estética a partir desta versão redutora é deixar pelo caminho muitas outras definições e, desse modo, excluir as tensões que a atravessam. O estético é também o espaço que questiona os limites e esquadrias da razão, que confronta uma visão idealista do mundo com o seu substrato material e a sua imanência sensível, que trabalha nas zonas cinzentas em que a nossa experiência e a nossa praxis são ainda órfãs de um conceito que as balize. É ainda o espaço daquilo a que Rancière chamou a ‘partilha do sensível’, ou seja, da ordem que estrutura a nossa inclusão e exclusão num mundo comum, os modos de percepção, os lugares, os limites e os horizontes da nossa visibilidade e participação nele. O espaço, em suma, da nossa mundanidade.
Porque compreender o presente implica perceber a sua densidade histórica, propomos, na primeira parte do curso, um percurso arqueológico através de Kant, Hegel e Marx, Freud e Nietzsche. Partir destas figuras permitirá mapear a emergência de uma campo de reflexão sobre o estético, reconfigurar criticamente a própria noção de estética, bem como procurar pontos de contacto entre o estético e o político em lugares menos habituais. Destes autores emergirá uma constelação de problemáticas que têm estado na base de importantes debates contemporâneas. Pretendemos interrogá-los enveredando, na segunda parte do curso, pelos pensamentos de Benjamin e Adorno, Debord e Deleuze, Agamben e Rancière.
Oficina de Leitura da Unipop O AUTOR COMO PRODUTOR
As Oficinas de Leitura da Unipop destinam-se a promover a discussão pública e atenta de textos influentes mas com pouco eco fora do espaço académico, de modo a realçar a sua relevância para pensar o presente.
Procurar-se-á olhar os textos à lupa, tendo em atenção as suas especificidades históricas e conceptuais, e simultaneamente colocar os temas por eles apresentados em confronto com textos e contextos que os problematizem, desfamiliarizem e reinventem. Com isto pretendemos renovar não só a legibilidade dos textos, mas a legibilidade do campo político que nos circunda e das práticas e agentes que o compõem.
Teatro Maria Matos (2 e 3 de Junho)
Inscrições: 30
Preços: 15 euros (3 sessões/ 2 dias); o preço inclui os textos em discussão, em português. Serão emitidos certificados de participação.
A conferência de Walter Benjamin, ‘O Autor como Produtor’ (1934), serve de mote a três sessões de leitura e debate que procurarão realçar e repensar os passos mais significativos da sua argumentação.
Para Benjamin, o potencial transformador da arte só é pensável à luz dos dispositivos técnicos e políticos em que está inserida. Só através de uma mudança destes, que ultrapasse a inovação formal ou o conteúdo crítico, se poderá cumprir o imperativo de uma produção cultural radicalmente democrática, ou seja, que mine as barreiras entre produtores e consumidores.
Escolhemos uma constelação de textos – de Bertolt Brecht, Theodor Adorno, Guy Debord e Jacques Rancière – para ler à luz das problemáticas lançadas por Benjamin, e no confronto com os quais as suas interrogações possam ser alargadas e recontextualizadas. A partir de um olhar crítico sobre as divisões habituais entre produtores e consumidores de cultura, bem como a separação entre as esferas do estético e do político, do lúdico e do produtivo, procuraremos encontrar pontos de entrada para novas interpretações dos textos em causa bem como do campo cultural contemporâneo.
2 DE JUNHO, QUARTA-FEIRA
SESSÃO DA TARDE (18-20h)
Texto: Walter Benjamin,‘O autor como produtor’ (1934)
Convidados: António Guerreiro, Francisco Frazão, Manuel Gusmão;
3 DE JUNHO, QUINTA FEIRA
SESSÃO DA MANHÃ (11-13h)
Textos: Bertolt Brecht, ‘Ênfase no Desporto’
T. Adorno, ‘Breves considerações acerca da indústria da cultura’ (1963)
Convidados: Pedro Rodrigues, Miguel Cardoso
SESSÃO DA TARDE (15-18h)
Textos: Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo
Jacques Rancière, ‘O Espectador Emancipado’
Convidados: Ricardo Noronha, Manuel Deniz
SEMINÁRIO ECONOMIA ORGANIZADA
CASA DA ACHADA – CENTRO MÁRIO DIONÍSIO
Rua da Achada, n.º 11
www.centromariodionisio.org
www.u-ni-pop.blogspot.com
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Seminários Unipop
A ECONOMIA ORGANIZADA
com João Bernardo
Horário: dia 5, das 18h30 às 21h
dia 6, das 15h às 18h.
Entrada limitada ao número de lugares disponíveis!
Inscrições: unipopeconomia@gmail.com
A ECONOMIA ORGANIZADA. Na década de 1930, com o sistema financeiro em colapso, a indústria em crise e o comércio internacional em retracção, havia dois únicos lugares onde a economia crescia a alta velocidade, a União Soviética e a Palestina judaica. O caso da Palestina é pouco conhecido e o motivo do seu crescimento económico é muitíssimo interessante, mas de carácter estritamente político. Para o mundo eram os planos quinquenais soviéticos que importavam, numa demonstração cabal de que a organização centralizada da economia ultrapassava os problemas que o livre mercado era incapaz de solucionar. Enquanto os especuladores se punham em fuga ou se suicidavam e os patrões abriam falência, os burocratas e a tecnocracia mostravam como se podia dirigir com êxito a vida económica. Para quem o esqueça hoje, foi assim a década de 1930.
Mas os políticos e os gestores preocupados com a salvação do capitalismo hesitavam. Valeria a pena incorrer nos custos sociais de uma revolução − com o risco suplementar de ela vir a ser verdadeiramente revolucionária − para organizar centralizadamente a economia? A experiência do estado-maior alemão durante a primeira guerra mundial mostrara que era possível organizar a produção e o consumo partindo do terreno firme da ordem e sem pôr em causa a propriedade privada, e Lenin nunca escondeu o que a sua concepção de comunismo devia à economia de guerra do estado-maior alemão. Encontramos aqui os pólos que presidiram à tentativa de reconstrução do mundo na década de 1930.
Entre esses pólos proliferaram elementos intermédios, veiculando influências recíprocas. Foi neste meio que se gerou a noção de Economia Organizada. Era por definição um meio discreto, porque não se integrava nas principais forças políticas, e esta vocação de obscuridade correponde à forma de exercício do poder pelos gestores. Conviria estudar esses personagens dos bastidores, deslindar-lhes os percursos. Situados entre os dois pólos, quando não em ambos ao mesmo tempo, qualquer que fosse o rumo dos acontecimentos eles tinham representantes no lado vitorioso. Depois da guerra, foram eles quem fez o mundo.
JOÃO BERNARDO é autor de vários trabalhos, entre os quais se destacam, mais recentemente, Labirintos do Fascismo. Na Encruzilhada da Ordem e da Revolta (Porto, Afrontamento, 2003) e Capitalismo Sindical (São Paulo, Xamã, 2008), João Bernardo reside a maior parte do tempo no Brasil, onde tem sido conferencistas em diferentes universidades.
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Dia 6, às 18h30, lançamento do livro com textos de
KARL MARX, CRÍTICA DO NACIONALISMO ECONÓMICO
Edições Antígona
Tradução de José Miranda Justo
Prefácio de José Neves
Debate a partir dos textos de Marx e com a participação de José Bragança de Miranda e José Luís Garcia
CRÍTICA DO NACIONALISMO ECONÓMICO. Este volume inclui dois textos de Karl Marx: o primeiro é um dos seus escritos menos conhecidos, redigido em 1845, e, em rigor, uma crítica à obra de Friedrich List, O Sistema Nacional da Economia Política (1841). O segundo texto é o discurso proferido por Marx em Janeiro de 1848, «Discurso Sobre a Questão do Comércio Livre». Aqui, Marx procura desmontar o argumento de acordo com o qual o comércio livre, na medida em que aumentaria os salários e diminuiria o preço do pão, beneficiaria o partido dos trabalhadores. No início do século XXI, é digno de atenção o regresso a um Marx que censura o proteccionismo com tanto ou maior empenho do que o que empresta à crítica do comércio livre.
A POLÍTICA PARA ALÉM DA POLÍTICA
DE 13 DE OUTUBRO A 24 DE NOVEMBRO de 2009.
SEMPRE ÀS 18H30 DE TERÇA-FEIRA
NO BAR DO TEATRO MARIA MATOS.
Entrada livre
Política. Provavelmente, nas duas últimas décadas, não haverá palavra cuja crise tenha sido mais vezes anunciada. A simples enunciação do termo parece suscitar cansaço, fastio, ou na melhor das hipóteses um comentário irónico, céptico, cínico. E contudo não existe outro caminho que não o de voltar uma e outra vez a discutir política, a questão estando no que se entende por política.
Por isso dizemos que este ciclo de sete debates propõe levar a política para além da política e a fórmula sinaliza a vontade de extravasar os debates que predominam na agenda da política institucional, reunindo preferencialmente analistas políticos, ministros, jornalistas, deputados, técnicos de sondagens ou cientistas políticos.
Decorrendo ao fim das tardes de terça-feira, no bar do teatro maria matos, este ciclo trata então de construir um mapa de problemas, da ideia de representação à questão do populismo, passando pela política da plebe ou da multidão, do conceito de biopolítica às políticas de identidade e abordando a relação entre política e polícia.
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debate n.º 1
13 de Outubro
POLÍTICA, RAZÃO E EMOÇÃO
Com Manuel Villaverde Cabral e Manuel Loff
A frequente utilização da ideia de populismo tem levado à sua banalização, a ponto de ser legítimo perguntar se nos tempos que correm populismo não é apenas a forma mais rápida de desautorizar projectos políticos de que se discorda. Simultaneamente assistimos a uma crescente tecnicização do debate político, definindo-se a política enquanto assunto de especialistas que deverá privilegiar um tratamento preferencialmente racional, de acordo com o qual uma qualquer relação entre política e emoção reveste um sentido patológico.
Autor de várias obras, de O Operariado nas Vésperas da República a Cidadania e Equidade Política em Portugal, Manuel Villaverde Cabral é investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Lisboa, sendo actualmente Vice-Reitor da Universidade de Lisboa. Manuel Loff é historiador, professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e tem vários trabalhos na área da História. Publicou recentemente O Nosso Século é Fascista! - O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945).
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debate n.º 2
20 de Outubro
POLÍTICAS DE IDENTIDADE
Com Miguel Vale de Almeida e António Figueira
Nas últimas décadas, a palavra identidade tornou-se um conceito recorrente no debate político. A nível dos movimentos sociais tem sido frequentemente defendida a necessidade de construir identidades que, fundindo dimensões políticas e culturais, permitam a várias figuras subalternas – colonizados, camponeses, indígenas, negros, mulheres, gays – forjar um poder de resistência e transformação que reaja às políticas de identidade dominantes, baseadas no colonialismo, no racismo, no machismo ou na homofobia. Entretanto, este identitarismo estratégico tem sido igualmente criticado pelo facto de ser incapaz de trabalhar uma alternativa que coloque em causa a própria ideia de uma política baseada na noção de identidade, deixando assim por problematizar categorias como nação, género ou família.
Miguel Vale de Almeida é antropólogo e professor no ISCTE. É também activista em movimentos lgbt. Tem várias obras publicadas sobre corpo, “raça” e género. Publicou recentemente A Chave do Armário – Homossexualidade, Casamento e Família. António Figueira doutorou-se em História Contemporânea das Relações Internacionais pelo ISCTE, com uma tese intitulada A Invenção das Minorias? A definição de “minoria nacional” no âmbito da aplicação da convenção-quadro de 1998 e a evolução do regime de protecção das minorias nacionais na Europa. Foi professor de assuntos europeus, nomeadamente na Universidade Autónoma de Lisboa e no ISCTE.
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debate n.º 3
27 de Outubro
A POLÍTICA ‘A PARTIR DE BAIXO’
Com Fátima Sá e Paula Godinho
Quando falamos de política tendemos a conceber uma actividade profissional que ocupa o quotidiano de executivos governamentais e representantes parlamentares. Entretanto sabemos que esta limitação destitui de politicidade a actividade dos que estão à margem daqueles círculos institucionais. Importa por isso recolocar a relação entre política e grupos menos privilegiados num plano de debate que não esteja subordinado aos critérios definidos no quadro daqueles círculos institucionais, critérios estes que tendem a ignorar o que se poderia entender como experiências plebeias da política, experiências que remetem para conceitos como "economia moral da multidão" ou "armas dos fracos" e ecoam a história de inúmeros casos de resistência quotidiana e rebeldia popular.
Fátima Sá é historiadora, professora no ISCTE. Tem trabalhado sobre história dos movimentos sociais, história da cultura popular e história conceptual. Entre outros, publicou Rebeldes e Insubmissos – Resistências Populares ao Liberalismo (1834-1844). Paula Godinho é antropóloga, leccionando na FCSH-UNL. Tem desenvolvido pesquisa, entre outros temas, em torno de movimentos sociais e contextos de fronteira. Publicou, entre outras obras, Memórias da Resistência Rural no Sul – Couço (1958-1962).
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debate n.º 4
3 de Novembro
A CRISE DA REPRESENTAÇÃO
Com José Bragança de Miranda e Ricardo Noronha
De forma a dar conta da distância entre uma elite de representantes e o conjunto dos representados, é amiúde referido que vivemos em plena crise da representação. Assim, os debates em torno da abstenção ou dos votos em branco, ou a referência ao enfraquecimento dos poderes dos Estados nacionais no quadro da globalização, alimentam a ideia de uma crescente crise da representação. Paralelamente, a problemática da representação convoca um debate cujo alcance supera a actualidade político-institucional. No quadro da política, mas não só aqui, o ideal de representação parece pressupor a possibilidade de uma relação incorruptível entre quem representa e aquilo que é representado. De tal modo assim seria que, na relação estabelecida entre governante e governado, o sujeito primeiro reflectiria transparentemente o objecto representado. Contudo, se não estivermos seguros desta transparência, o debate da representação deverá começar por perguntar se a representação é sempre um lugar de crise e, por outro lado, questionar se é possível pensar em política e em democracia além da representação.
José Bragança de Miranda é professor de Ciências da Comunicação na FCSH-UNL e professor convidado na Universidade Lusófona. Entre outros, publicou Queda sem fim, Teoria da Cultura e mais recentemente Corpo e Imagem. Ricardo Noronha é historiador, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, onde realiza o seu doutoramento acerca da nacionalização da banca no pós-25 de Abril.
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debate n.º 5
10 de Novembro
POLÍCIA E POLÍTICA
Com Manuel Deniz Silva e Tiago Pires Marques
Em vários países do século XX, a memória da polícia política remete necessariamente para os tempos da ditadura e sabemos que a crítica desses tempos cria uma oposição radical entre a ideia de polícia e a ideia de política. E hoje ainda, quando se trata de debater a relação entre política e polícia, é de um exercício físico e violento do poder de Estado que estamos muitas vezes a falar. Entretanto, polizei, policy, política, polícia, são palavras que percorrem um mesmo universo histórico, num quadro de continuidade e de ruptura que envolve a administração interna, a ordem pública, o direito, a estatística. Neste contexto, e partindo das aproximações de Michel Foucault e Jacques Rancière, esta sessão procura situar o debate político à luz de um mais amplo entendimento da relação entre polícia e política.
Manuel Deniz Silva é investigador do Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos de Música e Dança, da FCSH-UNL. Realizou doutoramento em Paris sobre a História da Música em Portugal e trabalha actualmente sobre música e cinema. Tiago Pires Marques é historiador, investigador na Universidade de Paris I. A sua investigação tem incidido sobre a história do direito penal, do sistema prisional e da criminologia. Publicou, entre outros, Crime e Castigo no Liberalismo em Portugal.
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debate n.º 6
17 de Novembro
A BIOPOLÍTICA
Com António Guerreiro e Nuno Nabais
Nos últimos anos, a biopolítica de Michel Foucault tornou-se um sugestivo lugar de debate. O recurso ao conceito parece anunciar que a discussão da política terá que decorrer num plano que extravasa largamente o domínio do institucional, alastrando-se a todas as esferas da vida, no momento em que emergem novas técnicas de governo da população. Entretanto, e a partir da obra de autores como Giorgio Agamben, Roberto Esposito ou Antonio Negri, a noção de biopolítica tem sido objecto de interpretações diversas, por vezes até contraditórias, nuns casos apresentando o conceito como "grito de alerta" contra o actual estado das coisas, noutros interpretando-o como gesto de abertura de novos campos de poder político.
António Guerreiro é crítico no jornal Expresso, tradutor e ensaísta. Tem trabalhado particularmente autores como Walter Benjamin e Giorgio Agamben. Nuno Nabais é professor de filosofia na Universidade de Lisboa e autor, entre outros, de A Metafísica do Trágico. Estudos sobre Nietzsche. É ainda coordenador da Fábrica de Braço de Prata.
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debate n.º 7
24 de Novembro
DA CIÊNCIA POLÍTICA À FILOSOFIA
Com Bruno Peixe, Lisete Rodrigues e Eduardo Pellejero
Ao longo dos últimos anos, os cientistas políticos assumiram um lugar proeminente no comentário e na análise política. Assumindo frequentemente a figura do especialista e do perito, os seus comentários tendem a focar preferencialmente dinâmicas eleitorais e institucionais e, de forma visível em Portugal, a ciência política tem conhecido assinalável desenvolvimento académico, demarcando-se da História, da Antropologia ou da Economia Política. Entretanto, nos últimos anos também assistimos a uma recuperação da filosofia enquanto discurso que é condição da política – e vice-versa – e que em certos casos vem mesmo rejeitar a própria ideia de uma articulação entre ciência e política. Esta sessão procura debater o lugar do conhecimento e das ideias na vida política.
Bruno Peixe é investigador da NUMENA. Economista de formação, realiza mestrado em filosofia e tem-se interessado particularmente pela obra de Alain Badiou. Lisete Rodrigues é doutoranda em filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde desenvolve uma tese acerca do pensamento político de Espinosa, Hannah Arendt e Alain Badiou. Eduardo Pellejero realiza actualmente pós-doutoramento em Filosofia, na FCT-UTL. Tem vários trabalhos publicados, nomeadamente acerca de Gilles Deleuze.
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SUGESTÕES DE LEITURA PARA OS DEBATES
No jornal do Teatro Maria Matos, que é possível encontrar aqui, deixámos uma sugestão de leitura para cada um dos debates. Está tudo entre as páginas páginas 23 e 27. A selecção dos textos é da exclusiva responsabilidade da unipop. Aqui fica a lista:
Para o debate do dia 13 de Outubro…
O POPULISMO SEGUNDO ERNESTO LACLAU
Para o debate de dia 20 de Outubro…
ERIC HOBSBAWM E AS POLÍTICAS DE IDENTIDADE
Para o debate de dia 27 de Outubro…
A MULTIDÃO DE E.P.THOMPSON
Para o debate de dia 3 de Novembro…
PIERRE BOURDIEU E O MISTÉRIO DO MINISTÉRIO
Para o debate de dia 10 de Novembro…
POLÍCIA, POLÍTICA, FOUCAULT E RANCIÈRE
Para o debate de dia 17 de Novembro…
PETER PÀL PELBART, BIOPOLÍTICA E BIOPOTÊNCIA NO CORAÇÃO DO IMPÉRIO
Para o debate de dia 26 de Novembro…
BADIOU, FILOSOFIA & POLÍTICA
A METRÓPOLE, FÁBRICA SOCIAL
de 28 de Setembro a 1 de Outubro de 2009
Teatro Maria Matos, sempre às 18h30
Entrada livre
Organização do Teatro Maria Matos e da UNIPOP
A cidade constitui-se metrópole a partir do momento em que uma série de equipamentos e edifícios ligados em rede transformam cada via de acesso num fluxo produtivo. Uma teia de ligações, configurada por sistemas de transportes públicos, pontes e vias rápidas, redes sem fios e circuitos de videovigilância, é diariamente activada pela circulação dos habitantes da metrópole, os quais percorrem os escritórios, as fábricas, as salas de espectáculo, as lojas, as escolas, os hospitais, os jardins e os centros comerciais em que se produz e reproduz a vida social. A metrópole assemelha-se então a uma fábrica social, lugar de mobilização cooperativa da força de trabalho, onde se encontram as matérias-primas, circulam as mercadorias e onde se pratica o consumo, alimentando os circuitos de uma economia global.
Esta natureza produtora da metrópole encontra eco em alguns debates. Quando governantes e urbanistas invocam a imagem da “cidade criativa”, em parte reconhecem a natureza produtora da vida espiritual metropolitana. E quando nos falam acerca da necessidade de criação de uma imagem de “marca” para uma cidade, de algum modo repetem o gesto empresarial de criação do logotipo, símbolo que se inscreve no produto e cuja compra permite consumir um certo estilo de vida. Entretanto, a metrópole enquanto fábrica social extravasa largamente o que pode ser contido por aquelas formulações. Veja-se o caso da “cidade criativa”, fórmula que tende a reduzir a produção metropolitana a uma dimensão elitista, reduzindo a metrópole dos produtores – que liga margem sul e margem norte, que engloba centros e periferias, que articula indústria, serviços e comércio – a uma pequena e mui nobre cidade de criadores, de acesso restrito a alguns grupos profissionais de índole artística, uma cidade preferencialmente localizada em novos bairros de charme que emergem no interior dos velhos bairros populares dos centros históricos.
A contra-corrente desta concepção emergente que transforma a fábrica metropolitana em cidade criativa, a primeira sessão deste seminário de quatro dias começará por debater o conceito de “cidade criativa”. Contando, para este efeito, com a participação de investigadores das ciências sociais que se têm dedicado aos estudos urbanos, perguntamos para que servem as “cidades criativas”?
No segundo dia, com a ajuda de quem trabalha a metrópole em planos tão diversos como as políticas de transporte e as representações cinematográficas, transitamos da cidade dos criadores à metrópole dos produtores.
Esta passagem permitirá que no terceiro dia analisemos o governo metropolitano, debruçando-nos nomeadamente sobre a sua implicação no trabalho de arquitectos e urbanistas chamados a debate. O seu traço livre constitui muitas vezes a face mais visível de práticas e discursos de «renovação urbana» apontados à requalificação de zonas degradadas e à valorização do espaço público, mas a arte e engenho de arquitectos e urbanistas também participa, de forma menos evidente, de estratégias dirigidas à administração de pessoas e bens.
Finalmente, no quarto dia, focaremos os conflitos que ocorrem na metrópole e que são habitualmente tratados de forma despolitizada e avulsa (as chamadas “questões locais”) ou enquanto questões do foro criminal (a invenção dos “bairros perigosos”). Neste debate em torno das lutas metropolitanas, à procura de velhas e novas ligações entre antagonismos diversos, contaremos com a participação de activistas envolvidos nas lutas pelos transportes públicos, membros de comissões de moradores, dinamizadores de associações culturais, etc.
28 SET Para que Servem as “Cidades Criativas”?
Debate com Pedro Costa e João Pedro Nunes
29 SET Da Cidade dos Criadores à Metrópole dos Produtores
Debate com Tiago Baptista, Luís Vasconcelos e Renato Carmo
30 SET O Governo Metropolitano
Debate com Susana Durão, João Seixas e Tiago Saraiva
1 OUT As Lutas Metropolitanas
Debate com Chullage, João Branco e Eugénia Margarida
Breve apresentação dos participantes:
João Pedro Nunes é Investigador no Centro de Investigação e Estudos em Sociologia (ISCTE) e lecciona sociologia urbana no departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais, onde se formou e completou o doutoramento. Tem investigado o desenvolvimento urbano da periferia de Lisboa nas últimas décadas.
Pedro Costa é economista, formado no ISEG, e professor no Departamento de Economia do ISCTE. Tem trabalhado sobre questões do planeamento urbano e do desenvolvimento regional e local.
Luís Vasconcelos, antropólogo, tem levado a cabo investigação no campo das festas de música electrónica, com base no projecto de doutoramento intitulado Percepção e Modernidade. Alucinogénios no Portugal Contemporâneo. É investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS).
Tiago Baptista, historiador, tem diversos trabalhos sobre a história do cinema em Portugal. Trabalha como conservador do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM) da Cinemateca Nacional - Museu do Cinema.
Renato Carmo é Investigador no Centro de Investigação e Estudos em Sociologia (ISCTE). Doutorou-se pelo ICS em Ciências Sociais com uma tese sobre os processos de urbanização dos meios rurais. Tem dedicado os seus estudos a temas como a desigualdade social e a marginalização territorial.
Tiago Saraiva é Investigador Auxiliar do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. Doutorou-se pela Universidade Autónoma de Madrid em 2004 com uma tese em história das ciências sobre o papel dos laboratórios na construção da cidade moderna. Publicou recentemente, em co-autoria, Cidade & Cidadania (Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2008).
João Seixas é Investigador Auxiliar do ICS. Doutorado em Geografia Urbana pela Universidade Autónoma de Barcelona e em Sociologia do Território e do Ambiente pelo ISCTE, tem desenvolvido as suas investigações em torno das dinâmicas contemporâneas de governação urbana, bem como das lógicas e perspectivas do desenvolvimento sócio-cultural das cidades.
Susana Durão é Investigadora Auxiliar do ICS. Doutorada em Antropologia pelo ISCTE (2006), tem desenvolvido pesquisa na área do policiamento, patrulha e proximidade em Portugal, tendo particular atenção ao trabalho desenvolvido pela Polícia de Segurança Pública.
Eugénia Margarida é membro da comissão de moradores do Bairro das Amendoeiras, em Chelas. Associação que em 2005 e 2006, desenvolveu uma interessante mobilização contra o aumento de rendas imposto pela Fundação D. Pedro IV e pela defesa do direito à habitação condigna.
João Branco é membro do grupo Massa Crítica. Com origem em São Francisco (EUA) e realizado actualmente em mais de 350 cidades de todo o mundo, a Massa Crítica propõe um passeio no meio da cidade feito em transportes não poluentes, encorajando assim outras formas de mobilidade urbana.
Chullage é músico de intervenção e membro da Khapaz, associação sediada na Arrentela e pólo dinamizador da cultura local e da participação cívica. Tanto a sua música, como a sua intervenção política reflectem os problemas sociais existentes nas periferias das grandes metrópoles: a pobreza, o desemprego e precariedade laboral, a criminalidade e a violência policial.
